A importância dos limites na educação

Por Clarinice Paris, Mestre e Doutora em Ciências da Linguagem - Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL). É pesquisadora do grupo de pesquisa “Psicanálise e linguagem” junto à Unisul. Formação em Psicanálise. Especialização em Psicologia Jurídica. Graduada em Psicologia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). Fone: (48) 99997-1967. E-mail: claripsipalestra@gmail.com.
A função dos pais é formar cidadãos conscientes, capazes de transformar a sociedade com postura ética. Atualmente, uma das tarefas mais desafiadoras para os pais e profissionais da educação, é estabelecer limites. Para alcançar êxito nessa missão, é fundamental que superem suas próprias limitações, buscando apoio, com ajuda de profissionais, do conhecimento científico, desenvolvendo o autoconhecimento e compartilhando experiências. Trata-se de uma jornada que exige uma contínua superação dos desafios que a realidade educativa impõe.

Essa função requer uma constante superação de limites: ultrapassar barreiras, enfrentar dificuldades e buscar sempre oferecer o melhor de nós como pais e educadores. Para formar seres humanos de caráter, que reconheçam e pratiquem valores morais e éticos, é indispensável sermos exemplos vivos. A criança aprende a partir daquilo que vivencia no convívio familiar e escolar, sendo a família a base fundamental para a construção da personalidade infantil.
Basicamente, existem três dimensões frente aos limites:
Limites a serem ultrapassados, como formas de superação.
Limites a serem respeitados (Normativos) aos quais não podemos ultrapassar
Limites a serem impostos, para preservar o acesso dos outros a nossa intimidade e privacidade.
Segundo a teoria psicanalítica, é importante o desenvolvimento do entendimento de que nas relações sociais há o que é possível e o que não é permitido fazer, ou seja, quando nos relacionamos com as pessoas, é conveniente apreendermos que há um limite a ser respeitado na relação com o outro. Ao modo que a introjeção desses limites influencia a organização e a formação do nosso sistema psíquico:
ID - inconsciente: satisfaz as necessidades instintivas.
EGO – EU consciente: Lida com a realidade externa e controla as energias do ID.
SUPEREGO (MORAL): Internalização das regras, valores dos limites, através do sistema de recompensa e punição.
Devido, tamanha importância dos limites na formação da personalidade, a
colocação dos mesmos deve começar desde muito cedo, desde o nascimento.
Inicialmente, na criança pequena, o grau de frustração emocional é muito grande quando é contrariada, porém, ela precisa desse limite para estruturar sua personalidade e superar frustrações futuras. Os pais primordialmente, através de suas ações com a criança, formam os valores morais, influenciando diretamente a internalização dos limites e a formação da personalidade infantil.
Assim, com o passar do tempo, se os pais agirem com autoridade e firmeza, o superego se desenvolve, e a criança terá aprendido que existem coisas que pode fazer, e outras que não são permitidas. Contudo, a autoridade exercida pelos pais, contribui para a formação moral da criança, onde ela passa a ter disciplina, respeito ao outro, sentimento de responsabilidade.
Ter autoridade, é ter competência no relacionamento com a criança, respeitando sua idade, dando os limites com segurança, clareza, utilizando formas positivas de comunicar as regras, as ordens, para que a criança compreenda como deve agir através comunicação positiva e principalmente pelo exemplo.
Escreve Aristóteles, “Todo homem sensato foge do excesso e da falta, procura uma boa medida e lhe dá preferência” (La Taille, 2001). Assim, a virtude está em encontrar o equilíbrio, entre o meu limite e o do outro, utilizando-se da comunicação positiva, compreensão e respeito.
O auto conhecimento e o equilíbrio emocional dos pais é muito importante diante da educação dos filhos. Amar a si próprio respeitando as próprias limitações buscando superá-las, é o primeiro ponto para estabelecer limites. A auto estima dos pais e educadores é a base para uma educação emocionalmente saudável. Pais e profissionais precisam ter autonomia frente às crianças, no sentido de considerar suas próprias necessidades, desejos, expressando seus sentimentos, evitando se anular, se negligenciar, permitindo tudo para a criança.
Alguns sentimentos negativos como: medo, raiva, culpa, insegurança dos pais podem dificultar a colocação dos limites. É importante identificar os próprios sentimentos, evitando agir de modo a transferir no filho as suas angústias, compensando suas próprias frustrações, sendo permissivos, super protetores ou negligentes.
Quem considera e respeita as crianças, e quer sensibilizá-las em relação à consideração e o respeito, precisa aprender a se levar a sério, a se considerar, a se respeitar, pois, só quem impõe limites a si mesmo, pode comunicar limites aos outros.
Os limites devem ser colocados diante das ações indesejadas, evitando usar excesso de negativas, ou depreciações, pois, isso prejudica a formação da auto estima, onde a criança poderá passar a desacreditar na autoridade dos pais, ou criar um conceito de “não sou capaz”, formando um sentimento de incapacidade na mente infantil.
EDUCAR DE FORMA POSITIVA FACILITA A INTERNALIZAÇÃO DOS LIMITES
Recompensar o bom comportamento, sempre que a criança tiver atitudes corretas, através do elogio sincero, incentivar e mostrar que sua atitude é aprovada. Nosso carinho e elogios demonstram aprovação, são os melhores prêmios para a criança, pois, constroem e fortalecem sua auto-estima, e a cada dia acriança sente mais satisfação em agir de forma adequada.
Ajudar a criança a assumir as consequências dos seus atos, da mesma maneira que conversamos para elogiar, devemos falar para a criança que desaprovamos, o que fez de errado, que não aceitamos determinada atitude, explicando por que não pode agir daquele modo, ajudando-a compreender que é responsável pela atitude que tomou. Não demonstrar pena da criança se ela ficar triste, chorar ou se negar a falar com você, por ter sido responsabilizada. É melhor que ela fique triste hoje, mas aprenda a respeitar os pais, e o limite colocado, do que sofrer amanhã, por não ter compreendido como funciona o mundo e a convivência social.
Para manter a autoridade, cumpra o que disse. Se prometeu, faça, se ameaçou, execute. Seja coerente: Mantenha-se firme, não mude de atitude conforme o humor. É pelo tom de voz dos pais que a criança percebe se pode ou não barganhar, fazer valer o seu desejo. Prepare-se para repetir o que disse sem perder a compostura (sem alterar a voz nem o comportamento).
Nós adultos precisamos ter uma visão mais ampla e de longo prazo. As vitórias dos pais ocorrem em meio a muitas renúncias da criança, a uma inesgotável capacidade de controle emocional dos pais, e objetivos claros frente a educação dos filhos. Educar filhos é coisa séria, é preciso estar atento, desempenhar sua autoridade e participação na vida dos filhos.
RECONHECENDO SEU ESTILO DE SER PAI E MÃE
As atitudes, comportamentos, o tom de voz, o bom ou mau-humor, afetam diretamente o relacionamento pais-filhos. Existem quatro estilos básicos de se comportar como pai e mãe:
1) ESTILO AUTORITÁRIO (MUITO LIMITE E POUCO AFETO)
Neste estilo os pais têm alto nível de exigência, sendo rígidos e inflexíveis,
não considerando os sentimentos da criança, não permitindo que ela participe
das decisões ou escolhas, estabelecem muitos limites, porém, demonstram
pouco afeto e participação na vida do filho.
CONSEQUÊNCIAS PARA A CRIANÇA:
Desempenho escolar razoável, poucos problemas de comportamento, porém, são crianças submissas, podendo apresentar baixa auto-estima, depressão, ansiedade, estresse.
VERIFIQUE SE VOCÊ TEM OS COMPORTAMENTOS DO
ESTILO AUTORITÁRIO
Você sempre toma a maioria das decisões pelos seus filhos, pois, percebe que somente os pais que devem decidir o que diz respeito aos filhos;
Para você, disciplina significa punição;
Muitas vezes, o seu filho não sabe o que você realmente quer que ele faça, sendo necessário ficar repetindo;
Você expressa sua raiva a seu filho com muita frequência, ou usa de palmadas (porque você também recebeu) quando ele se comporta de modo errado;
Você controla e mantém as regras estabelecidas, com muita rigidez, não importando o que aconteça, pois, o filho tem que obedecer.
2) ESTILO PERMISSIVO (POUCO LIMITE E MUITO AFETO)
Os pais permitem quase tudo ao filho, oferecem coisas materiais em excesso, consideram os sentimentos, as opiniões e necessidades do filho, mas, deixam suas próprias opiniões e autoridade de lado, assim, é o filho quem estabelece as regras da casa.
CONSEQUENCIAS PARA A CRIANÇA:
Boas habilidades sociais e baixo nível de depressão;
Apego demasiado a coisas materiais;
Pouca tolerância à frustração;
Comportamento anti social;
Insegurança (a criança acha não ser capaz de realizar tarefas por si mesma);
Baixo rendimento escolar.
VERIFIQUE SE VOCÊ POSSUI OS COMPORTAMENTOS DO ESTILO PERMISSIVO:
Você acredita que seu filho deve expressar todos os seus impulsos para se desenvolver;
Sente-se muito sobrecarregado com seu filho;
Geralmente você não aguenta os pedidos, os choros, as discussões com seu filho e acaba fazendo o que ele quer;
Se fica aborrecido com algo errado que seu filho fez, não demonstra para ele, guarda para você;
Você apresenta poucas regras e expectativas para seu filho; Àsvezes, você chama atenção e disciplina o filho, outras vezes não.
3) ESTILO NEGLIGENTE (POUCO LIMITE E POUCO AFETO)
São pais que permitem quase tudo e não se comprometem com seu papel de educador, deixando o filho ‘solto’. São muito ocupados, confusos e não sabem como agir. Estabelecem poucos limites, pouco afeto e participação.
CONSEQUÊNCIAS PARA A CRIANÇA:
Tendência a comportamentos anti-sociais, para se sentirem parte de algo ou para chamarem atenção;
Baixa autoestima (a criança não se sente amada e valorizada), depressão, pessimismo, estresse;
Atraso no desenvolvimento, fraco desempenho escolar;
Problemas afetivos e comportamentais.
VERIFIQUE SE VOCÊ TEM OS COMPORTAMENTOS DO ESTILO NEGLIGENTE
Você passa pouco tempo com seu filho, tem pouco tempo para estabelecer regras, acredita que é ele quem deve ser responsável;
Abraça e beija pouco seu filho, nem conhece os amigos dele; Não ajuda seu filho nos trabalhos escolares, seria ele quem deveria ter responsabilidade dentro de si;
Você pensa que não precisa recompensar seu filho, elogiando quando faz algo bom, ou tira uma nota boa.
4) ESTILO PARTICIPATIVO (MUITO LIMITE E MUITO AFETO)
É o estilo mais favorável para o desenvolvimento integral da criança. Os pais exigem a obediência de regras, e, ao mesmo tempo, respeitam os sentimentos dos filhos, fazendo-os participarem das decisões e escolhas. Os pais se envolvem para brincar, ajudar nas tarefas, elogiam, mostram ter orgulho do filho.
RESULTADOS PARA A CRIANÇA:
Entendem o respeito mútuo e as consequências de seu comportamento;
Sentem-se valorizadas, amadas e gostam da vida;
Possuem elevada auto-estima e maior otimismo diante da vida;
Habilidades nos relacionamentos sociais;
Menor nível de estresse e depressão.
VERIFIQUE SE VOCÊ TEM OS COMPORTAMENTOS DO ESTILO PARTICIPATIVO
Você consegue comunicar as regras e limites com clareza e objetividade;
Frequentemente você está com seu filho e se diverte com ele;
Você procura elogiar e recompensar o seu filho quando ele se comporta adequadamente;
Aponta o comportamento inadequado de seu filho com firmeza e sem punição física ou verbal;
Valoriza o desempenho escolar do filho e o apoia nas suas tarefas;
Você considera as opiniões e os desejos do seu filho, diante dos nãos, age com coerência e respeito.
Para uma educação que promova a ética e valores para a vida, os pais devem agir de maneira equilibrada, entre exigência (colocação de limites e regras), e responsividade (proporcionar afeto e envolvimento). Aos pais, é possível proporcionar amor e limites ao mesmo tempo, e, o afeto aos filhos também se demonstra ao dizer não, colocando regras e limites, porque transmitem segurança e proteção. Dar limites é uma prova de amor ao filho, e, por consequência, ele sente que você lhe dá atenção, carinho e apreço, isso é fundamental para a formação de um ser humano que tenha equilíbrio emocional, respeito nos relacionamentos e uma postura ética diante da vida.
DICA: Após identificar seu estilo de educar, faça uma reflexão e verifique um comportamento seu que você gostaria de mudar. Reflita o motivo de desejar mudar o comportamento, e quais consequências ele provoca em sua família. Registre com quem e quantas vezes você apresenta esse comportamento. Trace um plano de como mudar sua atitude ou peça ajuda de um profissional caso necessitar.
Bibliografia:
LA TAILLE. Yves. Limites: Três dimensões educacionais. São Paulo: Ática, 2001.
WEBER. Lidia. Eduque com carinho: Equilíbrio entre amor e limites. Curitiba: Juruá, 2005.


